2026-06-25 IAOD
José Maria Pereira Coutinho
“A literacia da Inteligência Artificial na universidade locais”
Os recentes avanços vertiginosos da Inteligência Artificial (IA) a nível mundial deixaram de ser uma previsão de futuro para se tornar numa realidade estrutural transformando profundamente o mercado de trabalho global e eventualmente com elevado impacto na indústria do Jogo. A automatização de processos, a difusão de Grandes Modelos de Linguagem (LLMs) e a IA generativa estão a redefinir funções profissionais a um ritmo sem precedentes, ameaçando a obsolescência rápida de competências tradicionais.
Em Macau, a velocidade de transformação do mercado de trabalho principalmente na indústria do jogo e turismo supera largamente o ritmo de implementação das políticas de requalificação. Tenhamos em mente que a IA não é uma tecnologia estática porque evolui a uma escala semanal ou mensal. Qualquer que sejam os planos de desenvolvimento que não incorporem mecanismos de revisão e actualização contínuos com a IA correm o risco de se tornarem rapidamente desactualizados e descontextualizados, perdendo utilidade prática antes mesmo de serem plenamente implementados.
A mera aposta na formação inicial de jovens em idade escolar, embora necessária, é insuficiente para endereçar a situação dos trabalhadores já no activo cujas funções podem ser profundamente afectadas pela automatização num horizonte de poucos anos.
A crescente automatização e a introdução de tecnologia nos casinos e na indústria do turismo e lazer de Macau, embora ainda incipiente, já suscitam um debate social e político significativo, com potenciais consequências profundas para o mercado de trabalho local. O impacto mais imediato e visível centra-se na figura do “croupier”, uma profissão emblemática e protegida para residentes.
No futuro imediato, as maiores preocupações estão relacionadas com a potencial substituição dos dealers humanos por robôs mecanizados. Na recente exibição de "robôs-dealer" da Asian International Entertainment Expo geraram-se receios significativos entre os trabalhadores do sector dos casinos. A possibilidade real de adopção, impulsionada pela redução de custos destas tecnologias, é uma ameaça directa às dezenas de milhares de postos de trabalho de “dealers” em Macau.
A substituição em massa afectaria de forma desproporcional as famílias locais que dependem desta fonte de rendimento, num sector onde a mão-de-obra é maioritariamente local e protegida por lei.
A automatização não se limitará aos “dealers”. Contactamos recentemente vários especialistas em tecnologias, estes apontam que muitas outras funções são igualmente vulneráveis tais como recepcionistas de hotéis, assistentes administrativos, contabilistas, intérpretes e tradutores, comissários de bordo, analistas de dados e os trabalhadores da linha da frente dos serviços públicos e privados estão também na mira da automatização.
Apesar dos mencionados riscos, a adopção em larga escala de robôs nos casinos de Macau enfrenta barreiras significativas por inexistência de um quadro legal que regulamente o uso de robôs no sector do jogo, nomeadamente uma lei que definisse, por exemplo, o que é um robô e quais os seus direitos e deveres.
Contudo, o impacto da automatização na indústria do jogo em Macau é, neste momento, mais uma ameaça potencial do que uma realidade consolidada. No entanto, a pressão para a redução de custos e o avanço tecnológico global tornam esta uma questão de "quando" e não de "se".
O principal desafio para Macau será encontrar um equilíbrio entre a inevitável modernização tecnológica e a protecção de um dos seus pilares sociais e económicos: o emprego local. A resposta a este desafio passará, obrigatoriamente, por políticas públicas proactivas de requalificação profissional (reskilling), um debate legislativo aprofundado e uma estratégia clara que coloque as pessoas no centro do processo de inovação.
O Governo de Macau deve implementar um plano geral de resposta multidimensional ao desafio da IA com um conjunto de medidas estruturadas em quatro eixos principais: educação com qualidade, qualificação profissional especializada, criação de emprego qualificado e amplo diálogo social. O objectivo é que, em vez de serem meros espectadores, os jovens de Macau devem ser os principais protagonistas activos na construção de um futuro profissional promissor e sustentável.
O Gabinete do Deputado à Assembleia Legislativa da Região Administrativa Especial de Macau aos 25 de Junho de 2026.
José Pereira Coutinho
EXCURSOES DA ATFPM



